Saiba como é formado o preço final da gasolina vendida para o consumidor
Petrobras anunciou redução no valor de venda do combustível, mas definição do preço final é influenciada também por outros componentes
Por Mathias Boni
Os reajustes no preço da gasolina feitos pela Petrobras nem sempre refletem de forma imediata no bolso do consumidor. Normalmente, os anúncios englobam apenas parte da cadeia produtiva.
Segundo a estatal, são cinco os componentes que formam o preço médio da gasolina vendida na ponta final, a bomba de combustível. Enquanto a atividade da Petrobras tem influência na cadeia, os custos de outras etapas do processo, como distribuição e revenda, dependem de outros fatores (entenda abaixo).
O mais recente reajuste foi anunciado no dia 26 de janeiro — uma redução de 5,2% no preço da gasolina A para as distribuidoras. A Petrobras projetou uma queda de R$ 0,14 por litro. Esse valor, contudo, incide apenas sobre um dos componentes que determinam a formação do preço final da gasolina.
— Até a venda para o consumidor final, o combustível passa por várias etapas de uma cadeia. A redução anunciada pela Petrobras impacta uma parte dessa cadeia, enquanto os outros custos seguem os mesmos, ou até aumentando, o que também se reflete no preço da gasolina vendida na bomba — afirma João Carlos Dal’Aqua, presidente do Sulpetro, sindicato dos postos no Estado.
Em janeiro, o preço médio da gasolina comum no Rio Grande do Sul foi de R$ 6,31, conforme levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Tomando esse valor como base, a composição aproximada ao consumidor gaúcho é a seguinte:
Petrobras: R$ 1,89
Imposto estadual: R$ 1,56
Distribuição e revenda: R$ 1,12
Etanol anidro: R$ 1,06
Impostos federais: R$ 0,68
Cinco componentes
O primeiro é a parcela referente à venda do combustível por parte da própria Petrobras às distribuidoras, que equivale a 29,9% do valor final — é esta parcela que a redução anunciada pela estatal afeta.
Após a parcela da Petrobras, o fator que mais impacta a formação do preço da gasolina vendida são os impostos estaduais, notadamente o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que equivale a 24,8% do total do valor final da gasolina. No início deste ano, o valor do ICMS foi atualizado pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), órgão que reúne representantes do governo federal e dos Estados. Com a atualização de janeiro, o ICMS da gasolina subiu R$ 0,10 por litro.
Além do ICMS, o preço da gasolina também é afetado por tributos federais, como o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Somados, os tributos federais equivalem a 10,8% do preço final.
— O preço da gasolina reflete uma cadeia longa, altamente regulada e com forte carga tributária, é um produto cuja tributação tem peso estrutural relevante no preço final e começa ainda no início da cadeia produtiva. Há tributos federais e estaduais, cobrados no início da cadeia, dentro de um modelo chamado monofasia, ou seja, em uma única etapa de tributação. Dessa forma, hoje, a carga tributária representa, em média, pouco mais de um terço do preço do litro da gasolina — aponta Luis Wulff, CEO da consultoria tributária Tax Group.
Outro fator que afeta o preço da gasolina é o valor do etanol anidro, que obrigatoriamente é misturado à gasolina. Sua parcela de participação no valor final da gasolina vendida nos postos é de 16,8%.
— É de se considerar também que o preço do anidro tem aumentado, por estarmos na entressafra da cana. Entre o fim de dezembro e 23 de janeiro, o preço do anidro nas usinas aumentou 5,6%. Logo, esse é outro fator a impactar o preço final da gasolina vendida ao consumidor e que pode contribuir para diminuir o impacto da redução anunciada pela Petrobras — destaca o economista-chefe da consultoria ES Petro, Edson Silva.
Por fim, há a parcela referente justamente às distribuidoras e aos postos. Esta fração equivale a 17,7% do valor final do combustível.
— As distribuidoras têm liberdade de mercado para administrar essa alteração dentro de suas estratégias e visão de negócio, repassando então a gasolina aos postos. Cada posto também tem sua realidade própria, estratégia de vendas, custos operacionais, margens, demanda por fluxo de caixa, estoque, e vende a gasolina conforme achar mais adequado de acordo com sua necessidade e com o mercado onde está inserido. Por isso, o impacto de uma redução como essa anunciada pela Petrobras, além de muitas vezes se diluir ao longo da cadeia e ser influenciado por outros custos, não é uniforme e varia de posto para posto — reforça João Carlos Dal’Aqua.
Contexto internacional e importação
Outro fator que abranda o impacto da redução anunciada pela Petrobras é que muitas distribuidoras vinham importando gasolina, pois, segundo especialistas do mercado, os preços de venda praticados pela Petrobras estavam acima da média do mercado internacional.
O aumento da importação, que chegou a registrar cerca de 20% da gasolina vendida no Brasil em novembro de 2025, ante uma média de 8,5% ao longo de 2024, acarretou um excedente da produção da Petrobras. Para ser mais competitiva e recuperar mercado, a empresa decidiu, em janeiro, reduzir o preço cobrado pelo seu combustível.
Desde 2023, a Petrobras não segue mais a política de paridade internacional para precificação dos combustíveis no Brasil. Com isso, os preços passaram a estar atrelados à estratégia própria da empresa, levando em consideração “a participação da Petrobras e o preço competitivo em cada mercado e região, a otimização dos ativos de refino e a rentabilidade de maneira sustentável”, conforme declarou na época o diretor de logística, comercialização e mercados da Petrobras, Claudio Schlosser.
Além do preço acima do mercado internacional, outros aspectos da conjuntura externa vinham favorecendo a importação de gasolina por distribuidoras brasileiras. O barril de petróleo vem em queda, e a trajetória recente de desvalorização do dólar frente ao real deixa os preços mais atrativos, já que o barril é cotado a partir da moeda norte-americana.
— Com este cenário internacional, havia espaço para a Petrobras anunciar uma redução ainda maior no seu combustível. Os preços da gasolina continuam chegando elevados ao consumidor final e, em razão de todas as etapas da cadeia, principalmente quando passa pelas distribuidoras, não acredito que ocorra, na média, uma redução significativa de preço na gasolina vendida nas bombas — ressalta o economista Edson Silva.